May 15, 2011

Maniqueísmo Tabajara

Arquivo em: Coluna — Marco Telinha @ 11:57 pm
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Não sei se todos assistiram, mas o fato mais noticiado sobre a televisão na última semana foi o beijo lésbico na novela do SBT. Na verdade poucos assistiram, visto o baixo índice de audiência. Nem mesmo o pico alcançado durante o capítulo foi algo relevante. Na verdade, pelo que senti, foi o famoso “muito barulho por quase nada”.
Eu já estava pra falar sobre a novelinha do Tiago, mas pra abordar outro aspecto, o maniqueísmo extremado. É óbvio que esse estilo não é criação do Tiago Mutante Santiago, existe há séculos. Mas o maniqueísmo virou a arma fundamental dos folhetins televisivos. Todos, sem exceção, usam esse expediente surrado. No caso de Amor e Revolução o maniqueísmo foi realçado para satanizar alguns personagens e santificar outros. Fica mais fácil reconhecer um torturador quando ele também ronca, tem chulé, mau hálito, gases, bate na esposa, chuta o cachorro, joga lata de cerveja na calçada… Já o mocinho não fica com resto de alface nos dentes nem depois de comer 1 tonelada de salada. Tá bom, o povo noveleiro gosta disso… E o autor buscou o caminho mais fácil pra conquistar alguns pontinhos no Ibope. Falta estória, bota cenas de tortura e estupro. Falta assunto, bota uma cena de beijo lésbico. E tudo carregando ao máximo nas tintas.
Felizmente (ou infelizmente) a vida não é novela. As coisas não são tão preto ou branco. Estão mais pro cinza. Mas autor de novela não está preocupado com os fatos ou a verdade. Se assim fosse eles seriam documentaristas. Tudo que eles querem é audiência e garantir o salário gordo no final do mês. Deles e, se possível, dos filhos, esposa, amigos, namorados…
A cena do beijo não representou nada além de “causar”. E só conseguiu uns 3 pontinhos de acréscimo na audiência. A sua justificativa foi a mesma de sempre: mostrar que as relações homosexuais são comuns e não devem ser vistas como depravação ou doença. Justificativa meio hipócrita pro meu gosto. Se fosse tão simples assim bastaria fazer uma novela 100% gay. Pronto, uma novela totalmente gay e o público teria dezenas de beijos homosexuais por capítulo. Tá resolvido o problema.
Mas, sem ironia, acho uma pena que o “senhor dos Mutantes” tenha perdido a oportunidade de abordar (seriamente) um tema histórico tão rico como o período do golpe de 64. Vamos ter que esperar uma nova oportunidade e um outro autor. Com o Tiaguinho não rola!
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A crise da dramaturgia na televisão não está restrita ao “senhor dos mutantes” ou à uma única emissora. É geral. Dá pra ver isso claramente na Globo, a maior produtora do país. Entra novela, sai novela e tudo que leio são os problemas de audiência, a rejeição do público, as críticas… Em alguns casos até os atores estão reclamando do baixo nível e tentando fugir da escalação. Será que tudo isso é uma trama sórdida de parte do público? Aonde estão os 70 pontos das novelas de antigamente? Hoje a novela das 9 mal chega nos 40 pontos, a das 7 horas fica feliz quando alcança 30… Posso garantir que esse público não migrou pra Record, SBT ou Band. O bolo das outras não aumentou tanto pra confirmar essa migração.
Outro dia, depois de ler um monte de coisas na internet, resolvi assistir uns 15 minutos da Morde e Assopra. Francamente, pra ser ruim precisa melhorar muito. O argumento é fraquíssimo, o texto é patético. Dá pra entender bem o motivo de certos atores sentirem vergonha de interpretar aqueles papéis. Só mesmo por necessidade.
Alguém já conseguiu assistir um episódio de Lara Com Z?? Que porcaria é aquela?? Noite de sexta já é um horário ingrato. Daquele jeito ninguém pára na frente da tv. Aliás, será que o autor consegue ver aquele lixo? Acredito que não, visto que ele passa boa parte do tempo na internet, cuidando do rabo alheio. E, muito provavelmente, está assistindo aquelas novelinhas da CNT pra buscar inspiração.
Eu não sou um grande entendido em novelas ou interessado no assunto, mas deixo 2 pontos pra quem gosta do tema pensar:
1- Qual foi a última novela realmente boa que você assistiu com assiduidade?
2- Por qual motivo as emissoras cada dia mais apelam aos remakes?
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Falei do maniqueísmo e lembrei do assunto mais quente dos telejornais atualmente, o projeto do código florestal. Confesso que não é um tema simples e trivial. E nenhum espectador vai compreender a questão assistindo uma matéria de 90 segundos. Muito menos quando o relator do projeto justifica a mudança do seu texto com o argumento de que aliviou a barra do marido de uma senadora.
Fica claro que os envolvidos (ruralistas e ambientalistas) estão querendo satanizar uns aos outros. E, ainda que existam alguns xiitas em ambos os lados, não é bem assim. Aliás, tenham muito cuidado quando alguém inicia a defesa de sua opinião tentando satanizar o oponente. Esse argumento é muito pobre.
Mas parece que boa parte da mídia escolheu a opção maniqueista, tanto pra defender um lado quanto o outro. E, novamente, boa parte da imprensa ocultou a sua verdadeira posição. Até onde vi só a Band marcou posição. Concordemos ou não, isso é mais digno do que ocultar os interesses que defende.
Eu, pra ser honesto, só consegui entender um pouco do que estava sendo votado (e discutido) ao assistir o debate entre o Washington Novaes e um jornalista do Valor, no Comitê de Imprensa (TV Câmara). É um assunto que deveria interessar a todos nós, não só aos ruralistas e ambientalistas.
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Na penúltima coluna eu falei sobre o “jornalismo de palpites” e o espírito de pitonisa que tomou conta de algumas figuras. Pra mim isso é brincadeira e só pode ser tratado como tal. Tanto é que resolvi brincar de palpiteiro depois que o Renan soltou seus chutes para a final de alguns estaduais. Se quiserem ver o resultado é por AQUI.
Viram como é fácil palpitar? É mole, mole, mole… Daí algum de vocês deve estar pensando o que eu diria se tivesse errado todos os palpites. Elementar, caro Watson, eu faria o mesmo que os palpiteiros profissionais. Saída pela esquerda, de fininho, fazendo cara de paisagem :P É claro que eu nem tocaria no assunto.

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4 Comentários »

  1. Sobre o Código Florestal: Além da questão maniqueista que foi muito bem abordada por você e pelo programa da TV Câmara (tb tive a chance de assistir e foi bem mais explicativo do que os telejornais), o que me chama a atenção é o espaço que o ruralistas tem nas TVs da parabólica: muitos canais à sua disposição como o Terraviva e Canal Rural e nenhum canal mais voltado aos ambientalistas; não estou defendendo essa dicotomia, nem defendendo cegamente o que pregam os ambientalistas, mas é complicado dizer que temos uma democracia midiática, se um lado da questão não tem um espaço para defender seus pontos de vista.

    Sobre novelas: Já disse aqui uma vez que acho que o problema principal delas hj em dia é o espaço que se têm para criticá-las; no passado é bem possível que existiam novelas ruins, mas não existiam blogs para criticá-las, nem a opção do controle remoto para mudar de canal. Claro que o gênero novela em geral está desgastado, mas não vejo essa crise toda que se fala por aí no sentido de que está “tudo errado”; os remakes são feitos a meu ver pelo fato de que o público do gênero é muito conservador e não gosta de tantas novidades e por isso prefere a segurança de uma história tradicional. Mas isso não exclui o fato de nulidades como essa novela do SBT; os atores recitando os diálogos é algo bizarro e realmente perde-se uma boa chance de abordarem um tema importante da nossa história com uma produção fraca como essa.

    Comment by Alexandre — May 16, 2011 @ 11:07 am

  2. Novela No Brasil,NÃO DÁ MAIS!exemplo de ruindade q os jovens levar para o Real é”Malhação”.essa novelinha só deformou nossos jovens!

    Comment by leonardo-pe — May 16, 2011 @ 12:49 pm

  3. A telenovela é um formato supersaturado, e que vive da repetição excessiva de clichês, muitos obsoletos. O exame de DNA veio destroçar 90% das tramas banais de novelas, ainda que TODAS ainda sempre insistam no “fulano descobre que é/não é filho de beltrano”, ou então “fulana para beltrana pegá-la com seu namorado na cama e acabar com o namoro”, ou então o batido… “quem é o assassino de X?” E aí pega-se uma trama manjada e vamos encher linguiça enxertando imagens turísticas das cidades, clips, convidados musicais em alguma casa de shows fictícia, fazer campanhas politicamente corretas da doença x, do problema y, um jabá do Criança Esperança ali, toneladas de merchandizing acolá, um núcleo de amigas que só serve para elas se presentearem com sandália do “merchã”, com a bolsa da loja “do merchã”; flashbacks de meia hora; e assim por diante. E ai cada autor leva sua panelinha, tem que pôr também a esposa/amante/namorada/namorado do diretor. É tanta panelinha que muitos ótimos atores acabam sem espaço.

    Comment by J.S. Lopes — May 16, 2011 @ 1:17 pm

  4. Concordo com você e o Alexandre acima, o SBT perdeu um tema bem polêmico e histórico pra fazer uma novela muito fraca. Não consegui assistir muito por causa dessas coisas que vc falou. O autor trata o público como se fossem retardados e nunca tivessem lido um livro sobre 64. É dose.

    Comment by Julius — May 16, 2011 @ 6:39 pm

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