July 14, 2012

Monólogo Coletivo

Arquivo em: Coluna — Marco Telinha @ 12:11 pm
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Finalmente vi um pedaço do Na Moral. Mas antes de falar do programa, vou narrar algo que assisti num Redação Sportv recente. O Bial estava lá e, no meio do programa, resolveu contar um episódio que passou na China (ou outro país ditatorial do tipo). Um acrobata havia se acidente e ele tentava saber da situação, indagar, filmar… Aí chegou uma “otoridade” local e, querendo proibir, perguntou quem ele era. E o Pedro Bial respondeu: “Eu sou a liberdade de imprensa”. Muito bonito. De certa forma todos nós podemos (e devemos) lutar pela liberdade de expressão e informação. O perigo é achar que somos mais, só pelo fato de ter um crachá no peito. Ou acreditar que se é um semi-deus da informação.
Agora vamos ao Na Moral. É bem pior do que eu havia imaginado (e comentado na última coluna). E começo com aquela perguntinha básica: qual o objetivo do programa? A resposta mais óbvia é que se trata de um programa de debates. Aparentemente. Debate, até onde sei, envolve duas (ou mais) opiniões. Não vi tanta divergência ou antagonismo. Me parece algo como “o certo é isso”, vamos falar só disso. Um monólogo de 3 ou 4 pessoas com a mesma mentalidade. Sim, não estou maluco, eu disse monólogo entre 3 ou 4.
O Bial passou os últimos 12 anos filosofando sobre paredões, imunidades e líderes. Foi o guru dos brothers e sisters. Debatia sozinho, sem o contraditório. E parece que pegou o cacoete. Continua com seus conceitos e julgamentos morais. Um belo retrato da ditadura da opinião que vivemos atualmente. A opinião da “tchurminha” do Leblon (ou Jardins) que deve ser difundida e implantada nos 4 cantos do país. Até porque os filósofos THC leblonianos sabem tudo. A filosofia de alpargatas (junto com o marketingue de farofa) tem todas as respostas. Antes mesmo de conhecer as perguntas. Eles têm a “moral”. Então eles que fiquem com sua “moral”. Opinião, cada um tem a sua. E não basta usar alpargatas para ser filósofo.
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Vou aproveitar a trilha e falar algo que já estava engasgado há tempos. É meio parecido com essa linha filosófica do Na Moral. Trata-se do Altas Horas. Talvez nem todos lembrem que esse programa veio do SBT, onde era o Programa Livre. Mas ele começou bem antes, na Cultura. De lá pra cá mudou muito. Acho que só ficou o apresentador e o cenário. E o slogan eloquente: vida inteligente na madrugada.
Curioso notar que a nossa televisão só reserva 2 horas semanais (de madrugada) para nos oferecer a tal “vida inteligente”. Se a gente concordar com o slogan concluiremos que todo o resto da programação é “vida burra”. Mas, (in)felizmente, não é bem assim.
Eu fico vendo os depoimentos dos artistas e amigos do Serginho, repetindo o refrão, após cada intervalo. Mas qual é a vida inteligente do Altas Horas? São os cantores, preocupados em mostrar o último CD ou falar da agenda de shows? São os atores (globais), divulgando um filme ou peça em cartaz? São esportistas, balbuciando duas frases desconexas? É a sexóloga, respondendo a milésima pergunta sobre masturbação? É a platéia (jovem), perguntando “Você prefere fazer TV, cinema ou teatro”? Ou será o Serginho Groisman, sempre tão alegre e dinâmico?
Pior que aguentar todas as banalidades é suportar a pretensão. O pretensioso é aquele que se julga mais que os outros. O que repete um bordão vazio. E o que acredita no bordão.
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Eu tenho sérias dúvidas se a TV pode nos oferecer algo mais que um “programinha fast-food”. Ou algo mais que slogans grandiosos e programas rasos. Falei desses dois casos, da Globo. Mas e a outras redes, fazem algo melhor? Por mais que tente, não consigo lembrar de nada. Talvez algum leitor cite um programa de uma emissora pública. Nem sei; mas ainda assim é uma gota no oceano.
O mais trágico é que o telespectador talvez nem queira saber de vida inteligente na televisão. Parece entorpecido. Anestesiado após doses cavalares de sensacionalismo, vulgaridades, violência, tragédias e oba-oba ufanista. Parece que tudo virou linha de show, até o jornalismo, esporte, dramaturgia.
Não sei dizer se o maior culpado disso é o telespectador ou as emissoras. Talvez ambos. Mas o cenário é desanimador. Um bom exemplo é esse recente programa do SBT, O Maior Brasileiro de Todos os Tempos. A intenção do programa é até interessante. Ainda mais no SBT, tão avesso ao que não é linha de shows. A emissora passou meses pedindo a participação do público na votação. Ela chegou a apagar milhares de votos manipulados. Depois excluiu os votos no Sílvio Santos. Parece, parece, que ainda mexeu pra tirar o Edir Macedo da lista de finalistas. Nem vou entrar na questão. O grave é pegar a lista dos mais votados e ver isso:

maior bobagem de todos os tempos

Nada contra o Dedé, Tiririca, Luan Santana ou o sr. Gugu. Mas fica difícil ver essa lista e pensar que o telespectador quer algo além de farofa. E farofa da pior espécie!

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11 Comentários

  1. O problema do Na Moral, pelo que você disse (já que eu não assisti ao programa), a meu ver, é o mesmo de toda a TV aberta, da mídia e de muitos jornalistas: Eles não suportam serem contrariados, eles tem a fórmula e solução de tudo; quando querem diminuir seu espaço e a capacidade de pré-julgar quem os incomoda, começam a chorar, dizendo que é censura, a “liberdade do jornalismo” não pode ser ameaçada, etc. O problema na imprensa (e aí no mundo todo) é a censura PRÉVIA. Só se noticia quando se têm algum interesse favorável para tal. Além disso a superficialidade que falamos em outras colunas impera em nossa TV, e o Altas Horas é um exemplo disso.

    Até o Programa Livre no SBT teve momentos mais interessantes, pois era ao vivo e tinha alguns debates, como um sobre legalização das drogas; o programa hoje é apenas um amontoado de clichês, um marasmo que acrescenta muito pouco, o que é uma pena, mas é aquilo, o Serginho aceitou essa situação, portanto tome “inteligência” às 3 da manhã (talvez seja o único horário em que ela pode aparecer em nossa TV).

    Sobre o programa do SBT: Basicamente as pessoas confundem pessoas famosas com pessoas importantes. Além disso fazer votação pela internet não é a forma mais correta e científica para se ter um resultado mais correto, ainda que por aí, seja possível ver o nível de exigência e cultura de boa parte de nossa população. Tem gente que disse que esse programa é uma “homenagem” do SS ao Lula, pela ajuda que ele deu na venda do banco, pois provavelmente o ex-presidente tem ótimas chances de ganhar. Não acredito 100% nisso, mas também não duvido.

    Comment by Alexandre — July 14, 2012 @ 1:59 pm

  2. É bom lembrar também que, uma votação pela internet permite a ação dos fã clubes dos artistas/jogadores/personalidades da mídia que ficaram entre os 100 primeiros e aí vemos muitas aberrações entre os primeiros colocados.

    Comment by Alexandre — July 14, 2012 @ 2:43 pm

  3. Já saiu a grade da Record para os primeiros dias de Olimpíada; pelo visto vai ser a mesma coisa da época do Pan: Ana Hickmann disputando o salto em altura e Gugu fazendo o revezamento 4×100, com os “Balanços Gerais” no lançamento de balas, ou melhor, de dardos.

    Comment by Alexandre — July 14, 2012 @ 2:48 pm

  4. E só lembrando que o programa do Groismann na Cultura se chamava Matéria Prima, começou no fim dos anos 80, depois dele sair da TV Gazeta, onde fazia o TV Mix, um programa dentro de uma redação, em que misturavam jornalismo, entrevistas, música; se não me falhe a memória, a Astrid também participava, além do Marcelo Tás. O Matéria Prima se parecia mais com o Programa Livre, para quem não chegou a ver; nesse caso o Altas Horas realmente é mais engessado, mas não culpo só a Globo por isso, como eu disse no comentário 1.

    Comment by Alexandre — July 14, 2012 @ 2:55 pm

  5. Meu caro Alexandre, se o SBT quisesse uma votação menos bizarra, ainda que pela internet, bastaria definir que só poderiam votar em figuras já falecidas. Evitaria esse pastelão.
    Sobre o Matéria Prima, lembro muito vagamente. Só recordo bem quando já estava o Serginho, com os jovens. Agora temos o Serginho, alguns globais e a CLAQUE.

    Comment by Marco — July 14, 2012 @ 3:13 pm

  6. Era uma alternativa realmente, eleger pessoas apenas falecidas, mas muito provavelmente, nesse cenário, daria Ayrton Senna, muito pela aura quase messiânica que ele tem por aqui (e muito pela ajuda do seu amigo Galvão).

    Comment by Alexandre — July 14, 2012 @ 4:23 pm

  7. eu prefiro nesse caso as ditaduas da China.isso é Ridiculo o q esse apresentador falou.nenhuma imprensa é livre!tambem,com Ali Kamel de diretor raivoso,o jeito é engolir isso(por enquanto).sobre esse Negocio do Senna,o cara é um deus intocavel.to fora e olhe q vi a carreira do mesmo e nem foi meu”idolo”!

    Comment by leonardo-pe — July 14, 2012 @ 11:50 pm

  8. Meu avô falava de filósofo em compota. Deve ser o caso do Pedro Bial, o piloto da nave louca.
    O brasileiro não sabe votar nem quando a coisa é séria, imagina sendo num programa de TV. Botar o Tiririca na frente do Drummond é bem a cara de quem nem respeita sua história e cultura.

    Comment by Julius — July 16, 2012 @ 7:34 am

  9. Não assisti ao programa, mas me parece, pelo que li, que a Bandeirantes lançou mais um programa “novo”, que na verdade é velho, que é aquele das crianças junto do Professor Tibúrcio, mais conhecido como Marcelo Tas. Esse programa já não foi exibido pelo SBT há uns 10 anos atrás, se chamava Pequenos Farsantes, ou melhor, Brilhantes? Incrível como tudo hoje em dia que venha da tal produtora argentina parece ser ouro para a Bandeirantes, mesmo que seja ouro de tolo. Além disso parece que vivemos o fim de uma era no mundo; tudo é reprise, “remake” do que já foi feito; o Regis Tadeu abordou o assunto no seu blog citando um livro que fala do esgotamento da industria cultural de modo geral, e no Brasil vemos isso de forma bem clara na TV, música…

    Comment by Alexandre — July 16, 2012 @ 10:35 am

  10. Programa de debates tem que ter tempo, não adianta fazer um debatezinho de meia hora, sem nenhuma continuidades nas linhas de raciocínio. Até que o Pedro Cardoso deu umas opiniões interessantes. Aliás é curioso como A Globo sempre teve essa ojeriza aos debates, ao espontâneo, ao não-editado. Interessante notar que é a única emissora que jamais teve um programa de mesa redonda sobre futebol, algo que sempre deu muita audiência. Só fazem durante Copa do Mundo, quando querem instalar aquele clima de “Pátria de Chuteiras”. O program do Pedro Bial dá uma impressão de que ele chegou pros donos da Emissora, e pediu algo mais ou menos “eu quero um programa para eu desfilar minha intelectualidade e poesia-zona-sul, não quero ser apenas o apresentado do Big Brother”. Aliás, falar em um programa inteligente com o apresentador do BBB, é bem contraditório, como foi aliás ele reclamar do culto às celebridades, justamente num programa, o BBB, que fabrica famosos sem talento nem profissão definida.

    Comment by Lops — July 16, 2012 @ 1:33 pm

  11. Me parece que a intenção do Bial ou da Globo, ao fazer um programa sobre privacidade com o apresentador do Big Bost@ foi exatamente essa: chamar a atenção para esse novo programa dele e causar celeuma. (Apesar de que é sempre bom lembrar que tudo nesses programas de “realidades” é muito bem armado e editado). Creio que foi uma idéia meio irônica essa do Bial (ou da direção da emissora) ao fazer um “pseudo-debate” sobre o tema.

    Comment by Alexandre — July 16, 2012 @ 4:08 pm

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